Por trás de suas janelas

Carnaval na Terra do Bom Jesus, patrimônio vivo de Iguape
Por Diego Dionísio

Com bonecões do Zé Pereira, blocos do Boitatá, Litrão, Galo e banho da Dorothéia, as ruas tombadas do centro histórico do município ganham movimento, cores e muita animação, levando foliões de todas as gerações num grande festejo popular cultural

Na contramão das informações turísticas e mercadológicas, o carnaval de rua com bonecos, cabeções e marchinhas não está apenas no Norte e Nordeste do país. Em muitas cidades do Estado de São Paulo acontecem os cortejos carnavalescos e as saídas dos blocos de ruas que mantêm traços dos antigos entrudos.

 

Na Estância Turística de Iguape, localizada no Vale do Ribeira (Estado de São Paulo), em frente às edificações do século XVII, XVIII e XVIII acontece um carnaval de rua singular, espontâneo próprio da identidade regional expressado nos blocos de tradição e bonecos gigantes num pulsar intensivo para um público circulante  no cinco dias de  folia, mais de 100 mil pessoas de todas as gerações e classe sociais.

A cidade, fundada em 1538, contemplada pela beleza natural da Mata Atlântica, banhada pelo Rio Ribeira e o mar do litoral sul, desde 2009 é tombada como patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do  Patrimônio Histórico Artístico Nacional – IPHAN. Além de suas edificações, várias manifestações culturais, como a festa de São Benedito, Festa de Bom Jesus de Iguape, Santíssima Trindade e o carnaval tradicional remanescentes do passado, sobrevivem ao tempo e são consagradas como referência da memória do povo ribeirinho.

Neste período de carnaval, as ruas pacatas do Centro Histórico, que abriga quase 700 edificações tombadas como patrimônio material ganham cores, movimentos e música. De trás das paredes das casas, o intangível ganha forma e o patrimônio imaterial da cidade se materializa nos blocos nos quais, há meses, comunidades trabalharam para preservar o festejo popular, a segunda maior manifestação cultural da cidade.

O comércio central, que geralmente vende lembranças do Santuário do Bom Jesus de Iguape, dá foco aos artifícios carnavalescos: perucas, máscaras e as camisas dos blocos. Como um torcedor de time de futebol que veste sua camisa para mostrar o amor e a dedicação ao seu time, dias antes do carnaval os moradores da terra do Bom Jesus desfilam a camisa de seu bloco anunciando a hora de festar. Para participar do carnaval a regra é simples: basta colocar a fantasia, ou a camisa de seu bloco e entrar na folia.

Ao meio dia da sexta feira de carnaval, de longe é possível ouvir os tambores do Zé Pereira – bloco tradicional em várias regiões do Brasil – turistas, comerciantes e moradores começam a embalar na marchinha cantada há gerações: “Viva o Zé Pereira, viva o  Zé Pereira, viva o Zé Pereira no meu carnaval”. O bloco formado por um conjunto percussivo de bumbos, caixas, taróis, pratos e instrumentos de sopro é acompanhado do bonecão Zé Pereira e Dona Juritica, há quase 40 anos.

Num processo contínuo de preservação e salvaguarda dos bens materiais e imateriais da cidade, o Departamento de Cultura e a Casa do Patrimônio da cidade fomentam tradição do carnaval, oferecendo uma oficina de produção de Bonecões com todo o processo de empapelamento, pintura e costura para um grupo de jovens da cidade. Resultante desta ação, seis novos bonecos acompanharam o Zé Pereira, nos quatro dias de festa encantando crianças e adultos.

Anoitece e o Centro Histórico fica lotado. Os 20 blocos começam a fazer sua passagem pelas ruas em torno do Santuário dd Bom Jesus e o público acompanha dançando, pulando e brincando o carnaval. Uma lei municipal permite a execução apenas de marchinhas e canções produzidas pelos moradores facilmente embalados pelos foliões.

Dentre os blocos há uma expectativa para o Boitatá. Os bois no carnaval aparecem em várias regiões do Brasil e não seria diferente em Iguape. Dias antes de sua saída, a comunidade se reúne diariamente numa esquina onde abriga a grande estrutura do Boi de quase 10 metros de comprimento e dois de altura. E neste local uma prévia do carnaval acontece. Um aparelho de som instalado na calçada toca repetidamente o hino do boi que numa estrofe fala: “Vem me abraçar, vem me beijar, vem de novo, atrás do Boitatá vou te beijar de novo.”

No dia de sua saída para o cortejo, os moradores mais antigos ficam pelas calçadas, ansiosos para a passagem do Boitatá. O berrante toca e a cada mugido, gritos e aplausos são exaltados pelos foliões. À medida que o grande boi passa, a multidão se reveza para encostar no boi pois, segundo a tradição, o contato trará sorte no ano e este revezamento segue até o final do seu cortejo.

O bloco seguinte, também muito esperado, é o Banho da Dorothéia, que tem origem em Santos e se espalhou para todos os municípios do litoral paulista. Trata-se de um grande cortejo de homens e mulheres travestidos e fantasiados, tendo como figura central um homem de noiva grávida ao lado de seu noivo. Durante o cortejo, param num sobrado de uma família tradicional de Iguape e na varanda diante da multidão é realizado o casamento. O cortejo, de quase quatro horas, termina com o banho da Dorothéia no mar pequeno, onde os foliões também se banham.

São muitas as manifestações populares que se mostram vivas nos quatro dias de carnaval. Tem ainda os blocos do Litrão, da Chaleira e do A´corda. O processo dinâmico dos movimentos culturais populares permite o surgimento de novos blocos e alegorias, como o Kai e Sara e outros. O cenário para encerramento é a varanda do sobrado onde a Dorothéia casou. Os músicos tocam as últimas canções, formando um grande bloco diversificado de foliões.

Ao lado desta efervescência cultural, das ruas cheias e dos blocos e marchinhas, na rua paralela ao Centro Histórico, ainda no escuro, pescadores passam com seus barcos para a pesca do robalo. O cenário é surpreendente. Os primeiros raios de sol fazem do mar pequeno uma aquarela de nuances azuis projetadas na água e no céu, e um prateado nas ondas provocadas pelos barcos.

Na quarta de cinzas, o dia acorda com mais preguiça, mais quieto. Na pequena rodoviária de Iguape, pessoas de várias regiões do Estado, ainda com purpurinas, dormem encostadas em suas malas. Ligações para Presidente Prudente, São Paulo, Santo, Sorocaba, Pindamonhangaba são feitas pelas pessoas que esperam o ônibus chegar. É hora de voltar para casa.

A pacata cidade volta a ter seu ritmo natural, moradores nas praças, pescadores voltando do mar, reverberações sobre o carnaval, a saída do Boi, o colorido Galo e o quanto foi animado o festejo. Os moradores de Iguape se despedem dos amigos, familiares e visitas, os convidando para Via Sacra. O sagrado e o profano caminham juntos o tempo todo na terra de Bom Jesus. E por trás das janelas moradores descansam para o próximo festejo.

 

Fonte: Assessoria de Comunicação PMI

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