XVII Sarau Poético, Literàrio e Musical em homenagem a Paulo Massa

sarau-paulomassa

 

Paulo Massa, o gênio musical iguapense

Pianista e maestro iguapense, Paulo Massa nasceu no dia 25 de janeiro de 1900, filho de Joaquim Germano Massa, destacado músico e maestro, e Ana Cecília Pupo Massa. Seus padrinhos de batismo foram o poeta Fernando Álvaro Rebello e Maricota Rebello. Além de Paulo Massa, seus pais tiveram outros nove filhos: Benedito, Francisca, América, Joaquim, Maria de Guadalupe, Cecília, João, Anita e o caçula, também chamado Benedito, uma vez que o primeiro faleceu muito jovem.

Tocou Chopin aos 7 anos. Paulo Massa era muito estimado pela madrinha, d. Maricota Rebello, irmã do grande maestro Joaquim José Rebello (“Quincas Rebello), que levou-o para passar uns dias em sua casa e o menino acabou morando com ela. Aos cinco anos, Paulo Massa já tocava piano e compôs uma valsa para a madrinha, que ensinava música. Aos sete anos, assombrou toda a cidade ao tocar Chopin ao piano. O inspirado poeta Leite de Magalhães, em 1907, dedicou-lhe um lindo soneto.

Paulo Massa desenvolveu seus estudos musicais com o major Joaquim José Rebello, notório maestro iguapense, formador de várias gerações de músicos da cidade. Foi pelas mãos do Major Rebello que Paulo Massa se aperfeiçoou na arte musical, onde mais tarde se projetaria. Desde fins do Império até 1926, quando faleceu, o Major Rebello foi a maior autoridade musical na cidade, tendo fundado diversas bandas, entre as quais a mais famosa foi a até hoje lembrada Euterpe Paulista.

Em 10 de junho de 1920, Paulo Massa, então com 20 anos, casou-se com Lucília Fortes, filha do tenente Arthur Fortes e Cecília de Paiva Fortes. O casal teve dez filhos: Elza, Carlos, Maria Helena, Fernando, Dirceu, Antônia, Elvira, Marta, Rosa Sophia e Flávio. Sua descendência soma 32 netos, 25 bisnetos e 3 tataranetos.

Durante muitos anos, Paulo Massa dirigiu um conjunto musical, animando clubes, bares e festas religiosas da cidade. Através de um programa publicado na Tribuna de Iguape, pode se ter uma idéia do repertório do pianista, que se apresentou no dia 14 de março de 1926 no salão de elite do Bar Brahma, refinado ponto de encontro da época: O teu passinho (marcha, de E. de Campos); Nícia (valsa, de Rebello Júnior); Assobiador (foxtrot, de C. Grasselt); Passarinho verde (maxixe, de Nilo Tupy); O relógio da mulata (samba, de A. Duarte); (Músicas estas que foram executadas na primeira parte da apresentação). Após o intervalo, Paulo Massa tocou as seguintes composições: Quando Buhda sorri (foxtrot, de H. Brown); Iolanda (valsa, de Paulo Massa); A mulata me  beliscou (samba, de J. Bulhões);  Cartolinha  (bactime, de G. Vitti); O badallo (“samba official”, de Quinote); e Trágico Destino (valsa, de N. Fatigatti). Em 12 de setembro de 1926, Paulo Massa partiu para a cidade de Birigui, onde pretendia fixar residência, retornando, porém, já em 1927.

A Banda Santa Cecília. Após a morte de Rebello, em 1926, Paulo Massa e outros discípulos do maestro, resolveram fundar a Banda Santa Cecília, que estreou no dia 29 de maio de 1927. Durante alguns anos, Paulo Massa dirigiu essa banda, até que se dissolveu, voltando a reorganizá-la em 22 de novembro de 1931. Santa Cecília é considerada a padroeira da música, sendo também a santa protetora da banda Euterpe Paulista.

Uma carreira brilhante. Em janeiro de 1928, ao tempo do prefeito Acylino Cunha (1925 a 1928), foi assinado contrato entre a Banda Santa Cecília e a Prefeitura de Iguape, pelo qual os músicos se apresentariam todos os domingos e feriados no jardim da Praça da Basílica. Nessa época, em que o cinema ainda não era sonorizado, as concorridas sessões do Cinema Smart (depois Éden Cinema) eram animadas pela afinada banda de Paulo Massa. Também as festas religiosas não ficavam sem a animação de seu conjunto. Foi organista da Igreja de Iguape e professor de música do Colégio Bom Jesus, que funcionava na cidade, mantida pela Igreja Católica.

Considerado um gênio musical, Paulo Massa tocava todos os instrumentos musicais, sendo um grande pianista e compositor. Todo dia 25 de janeiro, sua data natalícia, os músicos da cidade realizavam alvorada festiva em frente à sua residência, onde era servido chocolate. Os músicos percorriam toda a cidade e depois o chocolate era servido em sua casa na Rua Capitão Dias, em frente à casa do saudoso Paulo Brasileiro Fortes, seu cunhado. À noite, acontecia um grande baile, que entrava pela madrugada afora. Católico fervoroso, Paulo Massa sempre ia às missas levando sua filha Elza.

Certa feita, pai e filha estavam sentados atrás do órgão, e, como as missas eram longas, a menina Elza dormiu. Quando a missa terminou, Paulo Massa foi embora e se esqueceu da filha. Quando Elza acordou levou um grande susto e saiu chorando pela igreja. Foi quando Sebastiãozinho Fortes, também cunhado de Paulo Massa, viu a sobrinha e a levou para casa. D. Lucília ficou muito zangada com o marido, mas logo tudo terminou em pizza…

A Banda Santa Cecília tocada em todas as solenidades religiosas e cívicas da cidade, nas festas de São Benedito, do Espírito Santo e do Bom Jesus e Nossa Senhora das Neves. Em 1934, Paulo Massa passou a direção da Santa Cecília para seu discípulo Aquilino Jarbas de Carvalho, que a conduziria até o ano de sua morte, em 1979. Assim, Paulo Massa fundou outra corporação musical na cidade, a Banda Nossa Senhora das Neves, que dirigiu por dez anos.

Na ocasião do IV Centenário de Iguape, em 3 de dezembro de 1938, Paulo Massa tocou num grande baile realizado na Prefeitura Municipal, com a presença do interventor Adhemar de Barros e esposa, com Paulo Massa ao piano, Augusto Rollo Júnior (Sinhô Rollo) ao violino, Zica Veiga na flauta e demais músicos de Santos, como o sr. Marader no contrabaixo. Um baile antológico.

Em 1944, quando o mundo se via às voltas com a Segunda Guerra e a cidade de Iguape se encontrava em difícil situação econômica, Paulo Massa decidiu se transferiu definitivamente com a família para São Vicente em busca de novos horizontes para a sua arte. No entanto, nunca perdeu os laços afetivos com a sua terra natal e vinha todos os anos para Iguape na ocasião da Festa de Agosto, render suas homenagens ao padroeiro Bom Jesus.

Em São Vicente, ela afinava pianos, não vencendo os chamados. Durante muitos anos, foi organista da Igreja do Valongo, em Santos. Também tocava na Igreja de São Vicente. Na Igreja do Rosário era chamado para casamentos e missas comemorativas. Tocou também por muitos anos em Eldorado. Foi organista em Itanhaém, por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo. Tocou em diversas bandas em São Vicente, porém não queria mais compromissos como maestro. Foi pianista na Ilha Porchat ao lado de músicos famosos. Tocou piano durante muitos anos na Prainha, boate muito famosa na época. Sempre foi muito elogiado pelos jornais de São Vicente e Santos.

Andava sempre bem vestido, não saindo de casa sem paletó e gravata. Era nervoso e tinha medo de trovoada. Gostava muito de cavalos. Todo aniversário de Paulo Massa era muito festejado. Quando completou 70 anos, o filho Francisco, que tocava na banda da Força Publica de Santos, levou seu grupo para prestar uma grande homenagem ao querido pai, executando lindos dobrados, e a festa se estendeu pela noite afora. Entre suas composições destacam-se: a ária Elza para procissão, as valsas Maria Helena, Elvirinha, Marta, A Voz do Coração, Yolanda, Uma Saudade, Uma Recordação; os chorinhos Toninha, Rosinha, Fel de Boi; e a marcha Esperança, entre muitas outras composições.

Sua esposa Lucília faleceu em 30 de maio de 1976, aos 74 anos. Paulo Massa faleceu no dia 16 de janeiro de 1989, aos 89 anos, sendo enterrado no Cemitério Areia Branca, em São Vicente, junto com sua esposa que com ele viveu 56 anos de feliz união conjugal, acompanhando-o nos bons e maus momentos de uma vida tão historicamente rica.

Em junho de 1991, durante a gestão do prefeito Ariovaldo Trigo Teixeira, foi inaugurado o Centro Musical Paulo Massa, numa merecida homenagem ao grande maestro iguapense.

Sonhando

 

(Soneto escrito em homenagem ao gênio musical do menino (de 7 anos) Paulo Massa, e dedicado ao seu ilustre preceptor, o meu bom amigo, Sr. Major Joaquim José Rebello Júnior).

 

“Sonhei que ao alto Olimpo eu fora transportado,

Por invisível mão… Que sonho encantador!

E na mansão sublime eu vejo um tal fulgor,

Que me deslumbra a vista e deixa-me extasiado!

 

Milhares de imortais! e Apolo, reclinado,

No sólio adamantino, um trono de esplendor,

Dedilha a lira de ouro, e rege com fervor,

A orquestra colossal, de um modo desusado!

 

Mas cessam num momento as liras de vibrar…

E Júpiter, então, ergue a sua áurea taça,

Brindando um imortal que volta a reencarnar…

 

E esse eleito do céu, que mereceu tal graça,

Outro não foi senão o gênio de Mozart…

Que renasce em Iguape – e é o jovem Paulo Massa!”

 

(Do livro Versos Dispersos, 1909, de Leite de Magalhães)

 

Por Roberto Fortes

Publicado na TRIBUNA DE IGUAPE, nº 21, de outubro/2002.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *